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No mês de conscientização sobre o suicídio, é preciso atenção com a depressão pós-parto

Setembro Amarelo é o mês mundial que chama a atenção para a importância da prevenção ao suicídio, acontecimento que geralmente está ligado a doenças como a depressão. A depressão é caracterizada pela perda ou diminuição de interesse e prazer pela vida, gerando angústia e prostração. O tema já foi mais estigmatizado do que é hoje, no entanto, quando se trata da depressão pós-parto (DPP), o tabu e preconceito contra as mulheres ainda é evidente. Embora pouco falada, a depressão pós-parto está longe de ser incomum: mais de 25% das mães brasileiras têm sinais da doença, como apontou a pesquisa sobre fatores associados à depressão pós-parto no Brasil, feita com cerca de 24 mil mulheres de todo o país e conduzida por pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fiocruz (RJ).

De acordo com a obstetra, diretora da Associação dos Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais, Dra. Thelma Figueiredo, como a maioria dos transtornos psiquiátricos ainda carrega o estigma de tabu, o preconceito é grande e isso bloqueia a procura da mulher por ajuda. “Qualquer mulher pode desenvolver a doença, mas a prevalência é maior em quem tem antecedentes de transtorno mental (incluindo depressão), vulnerabilidade socioeconômica, gravidez indesejada ou histórico de traumas e violência doméstica”, afirma. E quem já teve DPP em uma gestação está mais suscetível na próxima. Outros fatores de risco passam por falta de suporte ou apoio familiar, ansiedade intensa, histórico de transtorno pré-menstrual, infertilidade, abortos ou perdas gestacionais e até problemas de saúde, como hipertensão ou diabetes.

A obstetra explica que ficar um pouco triste depois do parto é normal e esperado. Estima-se que 80% das mulheres tenham o chamado baby blues, certa melancolia que aparece nos primeiros dias do bebê em casa, dura no máximo um mês, e tem mais a ver com a adaptação física e emocional à nova realidade, além das alterações hormonais bruscas que o corpo sofre nessa fase. “Mas a Depressão Pós-Parto vai além tanto na intensidade quanto na duração dos sintomas, geralmente notados de quatro a seis semanas após o parto e que podem se arrastar por um ano (ou mais, em alguns casos). Ansiedade, irritabilidade, mudanças de humor, cansaço e desânimo persistentes estão no topo da lista de indícios, que também passam por diminuição de apetite, insônia e sensação de incapacidade”, assegura.

Dra. Thelma alerta que é preciso atenção para diferenciar a DPP dos sintomas comuns do puerpério, como fadiga e alteração de sono. “A suspeita vem com comportamentos atípicos, como a preocupação excessiva com a saúde do bebê, falta de vontade de levantar da cama ou perda acentuada de peso em pouco tempo”.

Apoio da família é fundamental

 Apesar do nome “pós-parto”, já se sabe que os sintomas da DPP podem começar ainda na gestação, período de intensas modificações biológicas, psicológicas e sociais. “A gravidez é um momento de crise no desenvolvimento maturacional da mulher e, portanto, há maior risco de desenvolver depressão, especialmente para aquelas que já tiveram algum histórico”, destaca a obstetra.

Por isso, países com uma política de saúde mental perinatal, como Nova Zelândia, Estados Unidos e Suécia, já adotam o rastreio sintomático da depressão na gestação e no pós-parto, o que ajuda no diagnóstico precoce e minimiza os riscos de agravamento. No Brasil, isso ainda não acontece, por isso a família é parte fundamental no processo de reconhecimento da doença e deve oferecer apoio para que a mulher compartilhe o que está sentindo, além de ajudar na identificação das alterações de comportamento. “Muitas vezes são os maridos que contam aos médicos o que se passa com as mulheres, por isso é importante que eles não menosprezem os sintomas da parceira”, defende Dra. Thelma.

Uma vez reconhecido o problema, é hora de partir para o tratamento, geralmente feito com a combinação de psicoterapia e antidepressivos. “Hoje temos medicações seguras e as mulheres podem continuar amamentando sem danos ao bebê”, completa. A especialista ainda alerta sobre o risco de o problema voltar. “A DPP é um transtorno multifatorial, sendo assim, o tratamento psicológico e psiquiátrico pode levar à remissão de sintomas, mas não devemos falar em cura. Quem teve depressão deve estar sempre atenta aos momentos que podem ser gatilhos para que a doença se manifeste novamente”, afirma.