Cerca de 7,5 mil pessoas participaram do 53º Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia. Os corredores do pavilhão de eventos do Expominas ficaram lotados. Na área dos auditórios, o espaço foi disputado por médicos de todos os cantos do Brasil. Aproximadamente 650 professores vieram a Belo Horizonte. Em cada curso oferecido aos congressistas foi desenvolvida uma dinâmica em que todas as etapas de atuação do médico foram exploradas pelos palestrantes. Ao final, o público participava de uma discussão, com esclarecimento de dúvidas e completo aproveitamento das discussões. Os cursos foram realizados simultaneamente em 11 auditórios. Além das 11 salas com eventos para médicos com várias mesas-redondas e conferências, havia outros espaços com discussões abertas à sociedade. Além disso, as manhãs foram marcadas pela “Conversa com Especialistas”, que em tom mais aberto ao diálogo abordou algumas temáticas do cotidiano do ginecologista e obstetra sempre com duração de uma hora e meia. Os congressistas tiveram a oportunidade de escolher entre dezenas de atividades. Uma programação minuciosamente planejada para oferecer a todos uma profunda reciclagem.
Fórum de Residência MédicaDra. Claudia Laranjeira
Durante o 53º CBGO ocorreu o Fórum de Residência Médica, organizado pelo professor da Unicamp e coordenador da Comissão de Ensino e Pesquisa - CEA/ Febrasgo, Renato Passini Júnior. O fórum abordou a situação das residências médicas no Brasil, com destaque para o impacto negativo da política federal de expansão e interiorizacão da Medicina, que visa o aumento do número de escolas médicas em sua primeira fase e a ampliação do número de residências médicas, posteriormente.
Durante o debate, ficou claro que este aumento indiscriminado poderá levar a uma queda em qualidade e dificuldade no controle da formação. “Há uma grande distorção entre o aumento do número de vagas/ano em Medicina e os recursos direcionados à atenção à saúde da população, o que muito contribui para a concentração de médicos nas capitais. A maioria dos formandos não escolherá o interior pela simples razão de que não existe uma política pública efetiva de atração e manutenção destes profissionais”, conforme citação na AMB Notícias 2007.
A representante do Ministério da Saúde, dra. Eliane Ribeiro, apresentou na oportunidade os projetos do governo federal para levar especialistas para áreas com carência de médicos. As principais propostas foram: realização de estudos individuais de algumas especialidades, melhora dos sistemas de informação nas residências médicas e construção de políticas de fixação do médico especialista em regiões onde não há médicos (este Projeto de Lei já está assinado pelo presidente da República).
Também foi destacado que a saúde da mulher e da criança está entre as prioridades do país e, desta forma, incluída nas redes de atenção. A dra. Eliane Ribeiro apresentou o projeto Pró-Residência, que objetiva orientar e desenvolver programas de qualificação de preceptores, ofertar estágios curriculares em articulação com outras redes de serviços e desenvolver projetos específicos de avaliação dos médicos residentes.
O dr. Gutemberg Leão Filho, que é membro do CEA, apresentou os resultados do cadastramento dos Programas de Residência Médica, realizado pela Febrasgo em 2009, cerca de 70% de todos os programas visitados pelos representantes da Febrasgo. Em 2009, 80% das vagas de residência médica em GO foram ocupadas. Foram avaliadas ainda as características de cada programa com os serviços oferecidos, incluindo forma de ensino e metodologia de avaliação. De posse destes resultados, os organizadores do fórum conseguiram elucidar a necessidade de estruturar as comissões fede-radas de Residência Médica, realizar cadastro anual dos programas, criar uma rede de cola-boração interinstitucional e de instituir avaliação anual de residentes.
A dra. Vera Borges, também membro da Comissão de Ensino e Pesquisa, mostrou experiências internacionais sobre competências para formação em nível de Residência Médica em Ginecologia e Obstetrícia.
O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e membro da Comissão de Avaliação Profissional - CAP, George Dantas, falou sobre como se desenvolve a expertise clínica e quais as implicações no planejamento das atividades voltadas para a formação de especialistas em GO. Ele destacou o modelo de aprendizado consciente das competências, explicando os processos e estágios do desenvolvimento das diversas habilidades e como os Programas de Residência Médica devem promover a progressão dos médicos residentes ao longo desses estágios do aprendizado.
A professora da Unicamp e coordenadora da CAP/Febrasgo, Eliana Amaral, abordou a importância do TEGO e a forma como as provas são elaboradas, procurando sempre precisão e estabilidade de medidas mesmo que em diferentes momentos. Além disso, foram apresentadas as análises estatísticas de provas anteriores e a qualidade do processo de avaliação usado pela Febrasgo. Ela apresentou também outras formas de avaliação do aprendizado já usadas em algumas instituições e deu como exemplo a construção de portfólios, entre outros.
Para finalizar o fórum foi realizada uma oficina com objetivo de revisar o conteúdo programático do programa de Residência Médica em Obstetrícia e Ginecologia para ser apresentado ao Ministério da Saúde e para a Associação Médica Brasileira. Estiveram presentes nesta oficina coordenadores de programas de residência médica de todo o país.
Videoconferência com Contribuições da Medicina Fetal na Prática ObstétricaDr. Carlos Henrique
Outro destaque do congresso foi a participação inédita do professor Kypros Nicolaides nos CBGOs, por meio de videoconferência diretamente de Londres. Internacionalmente reconhecido como umas das maiores autoridades em Medicina Fetal, ele abordou o tema“Contribuições da Medicina Fetal na Prática Obstétrica” e nos brindou com duas horas de amplas discussões sobre o que devemos fazer para melhorar os resultados materno-fetais.
Ele iniciou sua aula mostrando que grande parte das patologias materno-fetais pode ser rastreada ainda no primeiro trimestre da gestação e a importância que deve ser dispensada a este período da gestação. Destacou que o rastreamento seriado para cromossomopatias, utilizando-se a medida da translucência nucal associada à avaliação do osso nasal, ducto venoso, padrão de fluxo em válvula triscúspide e o teste bioquímico de primeiro trimestre (com PAPP-A + fração livre do HCG) deve ser oferecido e sempre realizado nas pacientes entre 11 e 13 + 6 semanas de gestação já que se obtém, nesta fase, altas taxas de detecção de cromossomopatias.
Abordou, ainda, a importância do rastreamento para doenças hipertensivas maternas utilizando-se a dopplervelocimetria de artérias uterinas no 1º trimestre e a possibilidade de identificação de gestantes com risco aumentado de parto prematuro com a medida do comprimento longitudinal do colo uterino, também nesta época da gravidez.
Apresentou pesquisa realizada recentemente em seu serviço de Medicina Fetal sobre a translucência intracranial, novo marcador para rastreamento de fetos portadores de espinha bífida, que também pode ser feita pela ultrassonografia de primeiro trimestre, com observações da alteração da região do quarto ventrículo.
Curso de Atualização em Infertilidade ConjugalDr. Marcelo Cançado
Sob a coordenação do professor Álvaro Petracco (RS), foi realizado o Curso de Atualização em Infertilidade Conjugal.
Os temas referentes à Medicina Reprodutiva, sempre instigantes, atraíram uma plateia ativa e curiosa de todo o país.
Em sua extensão, este curso abrangeu desde a epidemiologia dos processos reprodutivos, passando pela polêmica de cada fator envolvido no processo, até uma análise crítica dos tratamentos atuais, não faltando a montagem de cenários, próprios desta área da Ginecologia.
Questões filosóficas e éticas, pertinentes, entremearam as questões científicas do curso com um resultado final magnífico.
Fórum de Saúde da AdolescenteDra. Cláudia Lúcia Barbosa Salomão
Constituindo-se em atividades que têm como objetivo reunir impressões e protocolar procedimentos, os fóruns realizados nos congressos médicos da Febrasco e SOGIMIG vêm legitimando a sua função. Grupos de profissionais, envolvidos em determinadas áreas de atuação, empenharam-se no último Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia, realizado nesta capital, objetivando a revisão de vários conceitos e sugestões de protocolos em áreas específicas.
No que tange ao fórum de Saúde da Adolescente, vários tópicos foram abordados e debatidos. Discutiu-se sobre os direitos sexuais e reprodutivos dos jovens, abordando as questões éticas e legais, orientação sexual e contraceptiva com ou sem demanda espontânea. De igual importância, debateu-se os riscos e vulnerabilidade dos adolescentes e como trabalhar a diminuição destes eventos.
Outro tópico bastante discutido foi a respeito da saúde óssea de nossas crianças e adolescentes e o reflexo da anticoncepção hormonal no esqueleto dos jovens.
Os métodos contraceptivos continuam sendo pauta de discussão constante e esclarecimento sobre novos e mais modernos métodos.
Metodologia e peculiaridades da lactação na adolescência foram abordadas e também discutidas. O aborto na adolescência, gravidez e vias de parto constituíram-se em assuntos polêmicos que concluíram a necessidade de atenção primária e secundária à adolescente, priorizando o seu atendimento e enfatizando a importância de um pré-natal bem realizado. Trabalho árduo, e de comprometimento de todos os integrantes das atividades do fórum, foi a respeito da prevenção da segunda gravidez na adolescência e valorização do estabelecimento de limites saudáveis no exercício de sexualidade dos jovens.
Terapia HormonalDr. João Henrique Reis
No dia 16 de novembro à tarde, próximo ao hall de entrada da Arena do Expominas, grande movimentação de congressistas e uma verdadeira megaoperação de logística envolveram a entrega de equipamentos de tradução simultânea para a seção que se iniciaria em alguns minutos. Tamanha agitação não poderia ser outra que a palestra do professor Leon Speroff. O tema Terapia Hormonal (TH) e câncer de mama, por si só era de grande interesse. “Um pensamento em contrário” então atraiu hordas de ginecologistas, ávidos por conhecimento e novas informações.
Um dos principais nomes da Endocrinologia ginecológica e personagem ligado a história da Medicina, o professor Leon Speroff foi sem dúvida a maior atração do 53º Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia. Responsável por grande parte da evolução do conhecimento da Endocrinologia da mulher, demonstrou sua enorme capacidade e simpatia em palestras sempre muito concorridas.
Os mais de dois mil lugares estavam completamente tomados e havia pessoas nos parapeitos, corredores e até mesmo no chão. Quatro enormes telões permitiam que ninguém perdesse nenhum detalhe e se sentisse perto da mesa e do ilustre orador. Apesar de tanta gente, havia muita ordem e organização, característica marcante dessa edição do Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia. O amplo ambiente de arquitetura e decoração requintadas contava ainda com ótimo sistema de ar condicionado, deixando a temperatura agradável. Tudo contribuindo para o maior aproveitamento dos congressistas.
Sobre esse assunto palpitante o professor Speroff sempre se posicionou de forma diversa das conclusões centrais dos grandes estudos recentemente publicados, notadamente o “Womens Health Initiative”. Sendo assim, buscou de forma inteligente e eloquente cumprir o que se propunha: uma visão em contrário. Inicialmente buscando desvincular o uso da TH da gênese do câncer de mama explicando que possivelmente ela não induz a formação de cânceres, mas apenas estimula o crescimento de tumores preexistentes.
Descreveu os dados do WHI, indicando que o risco somente aumentava após o quinto ano de uso. Ou seja, a administração por quatro anos ou menos seria segura. Seu uso além de cinco anos não aumentou a incidência de tumores in situ.
Outro ponto relevante: o aumento de risco parecia não ser afetado pela história familiar. Além disso, as usuárias de TH diagnosticadas com câncer de mama não apresentavam doença metastática, sugerindo uma redução no risco de morrer do câncer de mama. Isso se constituía num paradoxo: aumenta-se a incidência e reduz-se a mortalidade pelo câncer. Uma das razões apontadas era de que as usuárias de TH faziam mais mamografias. Buscou, assim, explicar a solução para este aparente paradoxo: a maior vigilância resulta em diagnóstico mais precoce e os efeitos do estrogênio sobre o tumor induziriam tipos histológicos menos agressivos. Em sua experiência no Oregon, identificou uma sobrevida de 100% em pacientes diagnosticadas com câncer de mama durante o uso da TH.
Postulou que o efeito do hormônio sobre o tumor induziria a diferenciação celular, o que daria tempo à reação estromal facilitar o diagnóstico precoce. Segundo o professor, o hormônio participa da regulação de centenas de genes envolvidos no reparo do DNA e regulação do ciclo celular, assim favorecendo tumores de melhor prognóstico.
Com relação ao braço do artigo contendo pacientes histerectomizadas, e que tomaram apenas estrogênio, ocorreu uma redução na incidência que, apesar de não atingir a significância estatística, sugere uma tendência de proteção. Em seguida, demonstrou outros estudos europeus e americanos cujos resultados contrariariam os do WHI.
Com respeito ao declínio na incidência de câncer de mama nos EUA após a publicação do WHI, apontada por muitos como mais uma evidência da relação do hormônio com o câncer de mama, o professor Speroff o relacionou ao menor uso da mamografia.
Portanto, a mensagem deixada é que ou o aumento no risco é pequeno ou os dados refletem apenas um impacto em tumores préexistentes. É possível que a combinação de estrógeno e progesterona induza uma maior diferenciação celular e detecção precoce o que acarreta melhores resultados clínicos.
Para as pacientes, o recado é que a TH não se associa a um aumento de risco muito grande e a história familiar não é uma contraindicação a seu uso.
Suas observações e conclusões são polêmicas e nem todos concordam. Sem dúvida se posiciona diversamente do eixo central que se observa na opinião da maioria dos especialistas. Isso certamente acrescenta um tempero ainda mais atraente ao evento.
Por fim, o simpático professor do Oregon, carinhosamente recebeu perguntas da atenta plateia que desfrutou de mais 30 minutos de debate rico em colocações, perguntas intrigantes e respostas inteligentes. No final, a saída ordenada de milhares de pessoas deixava estampado no rosto de cada um a satisfação de ter presenciado horas de aprendizado rico e de caráter histórico. Esse foi mais um sucesso do memorável evento ocorrido nas alterosas. Deixará saudade.
O AlvoDr. Gui Mazzoni
Sociedade: s.f. reunião de homens e mulheres que vivem em grupos organizados; corpo social. Não nos esqueçamos que tais homens e mulheres somos nós mesmos, e não uma reunião teoricamente didática para simplesmente definir uma terminologia. Vivemos em cenas sociais onde não existem espectadores, mas tão somente atores que definem a qualidade de todas as vidas. Temos a capacidade e obrigação de interferirmos nos caminhos por nós percorridos. Talvez estejamos vivendo uma era em que é comum a acomodação e consequente redução da capacidade de indignação. Vale lembrar a história do sapinho, que ao ser jogado na fervura escapa reflexamente. Porém, deixado em banhomaria, ao aquecimento progressivo, desafortunadamente, falece devido à adaptação.
Medir a temperatura de nosso ambiente, de nossas relações é uma arte. A acomodação e a adaptação nos fazem sentir falsamente seguros, numa zona de conforto onde parece muito perigoso tomar decisões. No entanto, não decidir talvez seja a mais difícil decisão. Principalmente, por não vivermos num mundo em mudança, mas, sim, num mundo que já mudou, tamanha a velocidade das transformações. Transformar o hábito em estilo de vida é por demais perigoso. Devemos escapar da deslizante inércia dos trilhos e buscar, cotidianamente, caminhar por novas trilhas. Temos, então, de identificar o aquecimento, seja global, seja organizacional, seja social ou familiar. E agir.
Terminado o fabuloso ano de 2009, pudemos sentir o prazer de fazermos parte de um braço da sociedade brasileira: a SOGIMIG. É grande a satisfação de executar o que foi vislumbrado, de ousar na escolha de objetivos. Realmente, a principal tarefa do ser humano é estabelecer onde se quer chegar, pois daí surge toda a concretização. Vislumbrou-se construir o Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia na terra das Minas Gerais, e pôde-se extrair riquezas científicas, sociais, organizacionais e de defesa profissional. A grandeza do sucesso e dimensão alcançados é a maneira mais fidedigna de se mensurar o tamanho do sonho dos mineiros ao pleitear tal evento. Este congresso, além de encerrar o ano com chave de ouro, sintetizou diversos projetos e ações propostos pela atual diretoria da SOGIMIG. Propostas que foram elaboradas quando da composição de nossa chapa para a eleição e que foram concretizadas ao longo deste ano, mas que também fizeram parte do 53º CBGO. A proposta de atualização científica foi construída nos diversos eventos regionais no primeiro semestre e maravilhosamente aprofundada no CBGO com palestrantes nacionais e internacionais, inclusive culminando com o encerramento da carreira de palestrante do prof. Leon Speroff. O pioneirismo ao inaugurarmos o sistema de videoconferência na Associação Médica de Minas Gerais e a palestra de altíssima qualidade do prof. Kipros Nicolaides transmitida a partir da Inglaterra para o CBGO. As diversas ações comunitárias, externando nosso compromisso com a responsabilidade social, executadas pela SOGIMIG com crianças e adolescentes e eventos em nossa comunidade e participar dos fóruns no CBGO de DST/AIDS, Residência Médica em GO, Saúde do Adolescente e Defesa profissional. Esta por sinal, tem sido um dos pilares das gestões da SOGIMIG e se mostrou bem destacada no congresso brasileiro pela elaboração da Carta de Belo Horizonte ao Senado Federal com mais de quatro mil assinaturas de médicos de todo país em defesa da aprovação da lei do Ato Médico.
Não nos esqueçamos que só há dois dias no ano em que nada podemos fazer, o ontem e o amanhã. Encerramos o ano de 2009 com a satisfação de termos colhido bons frutos do plantio de nossas ações, apesar das enormes adversidades que enfrentamos pelo caminho. Mas, se não podemos festejar todas as conquistas que desejamos, podemos, sim, comemorar o correto posicionamento dos ponteiros de nossa bússola e, com a determinação que tem sido a marca das diversas diretorias da SOGIMIG, a convicção de que as vitórias irão, uma a uma, paulatinamente, sendo conquistadas.