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Belo Horizonte, 12 de fevereiro de 2010

Não à morbidade materna

Entrevista com José Guilherme Cecatti - Coordenador do projeto brasileiro e professor titular de Obstetrícia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Autor: Sogimig

   
    O Brasil é o primeiro país a criar a Rede Nacional de Vigilância de Morbidade Materna Grave, projeto da Organização Mundial da Saúde (OMS), financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O projeto é o primeiro estudo prospectivo - que acompanha os casos à medida que ocorrem a levar em conta os novos critérios da OMS para complicações graves na gravidez. Um dos primeiros resultados indica que, de todas as gestações brasileiras, cerca de 12% têm complicações graves. O coordenador do projeto brasileiro e professor titular de Obstetrícia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), José Guilherme Cecatti, apresentou o estudo pela primeira vez durante o 53º CBGO. Nesta entrevista, ele detalha o projeto e a sua importância para reduzir a mortalidade materna no Brasil.

Quais são os panoramas atuais da morbidade e mortalidade materna?
    Venho me dedicando, nesses últimos três anos, a estudar a morbidade materna grave. O assunto é desenvolvido junto com a Organização Mundial da Saúde (OMS). É uma maneira, relativamente nova, de tratar o problema das complicações que ocorrem durante a gravidez.
    A mortalidade materna no Brasil, segundo o Ministério da Saúde, é de cerca de 70 mortes maternas em 100 mil nascidos vivos. Do ponto de vista das pessoas que trabalham nesta área, não é um exemplo frequente. Mas se a gente fizer a relação com o Canadá e Japão, por exemplo, onde a mortalidade materna é de duas mulheres a cada 100 mil nascidos vivos, a mortalidade materna no Brasil é 35 vezes maior.
    Nesses últimos anos, há uma tendência crescente de, no lugar de estudar a morte materna, pesquisar as complicações, pois são elas que levam à morte. E o enfoque que nós estamos procurando fazer no Brasil é o que chamamos de Vigilância Epidemiológica. Isso consiste em assumir uma postura atenta para a possibilidade de morbidade ainda nas maternidades. Na medida em que a mulher é internada e vai passando pelos períodos de pré-parto, parto e o pós-parto, surge algum dos critérios de gravidade, esse já identificado como um caso em potencial. Aí, algum cuidado especial já deve ser assumido. O objetivo é evitar que o caso se complique ainda mais e evolua para o óbito.
    A OMS está muito interessada nisso e, nesses dois últimos anos, reuniu no mundo um grupo de pessoas e instituições que trabalham nessa área - como a Unicamp. No começo deste ano, o órgão concluiu e divulgou uma série de critérios oficiais. São critérios de como fazer essa vigilância, de como identificar o caso para que todo mundo fale a mesma língua e faça o mesmo procedimento.

Quais são esses critérios?
    Na verdade, vários critérios foram estudados. E o melhor tipo de critério, que se mostrou eficiente na identificação de casos de risco de verdade, é o que trata da disfunção orgânica - que é quando o corpo mostra, de alguma maneira, que algum órgão ou sistema apresenta uma disfunção grave. Qualquer disfunção da parte hematológica, respiratória, renal, neurológica. Fundamentalmente, os critérios estabelecidos são de três tipos: clínicos, que tratam do local onde é realizado o atendimento e dos recursos que ele dispõe; laboratoriais, que tratam de uma série de detalhes técnicos, como coagulação do sangue, oxigenação, parte cardíaca etc; e de manejo, que tratam daquilo que o profissional precisou fazer para a mulher - algum procedimento mais sofisticado para dar conta da complicação. A OMS padronizou esses critérios e desde outubro eles são oficiais.

Como está o Brasil nesse estudo?
    O processo de investigação começou em junho e o Brasil é o primeiro país, nesse contexto, que está com uma rede, a Rede Nacional de Vigilância de Morbidade Materna Grave. A princípio, é um estudo financiado pelo CNPq e, pela primeira vez, os critérios da OMS estão sendo utilizados de uma maneira prospectiva. Por enquanto, existe uma rede de estudos, composta por 27 maternidades distribuídas em todo o Brasil. Não é um programa oficial do Ministério da Saúde, mas tivemos uma reunião e temos a esperança de que a iniciativa seja adotada dentro do sistema nacional de saúde.

Hoje, qual é a principal causa da morbidade materna no Brasil?
    As principais causas ainda são as complicações decorrentes da hipertensão arterial, ou seja, pressão alta. Felizmente, como a quase totalidade dos partos tem sido realizada em hospitais, a hemorragia tem deixado de ser um problema.

É possível evitar a morbidade e, consequentemente, a mortalidade materna?
    É possível, mas o conjunto de medidas que conseguirá evitar ou diminuir efetivamente a morbidade e a mortalidade é muito complexo. É necessária uma atenção adequada ao pré-natal, com a disponibilização de uma série de recursos na maternidade para diagnosticar precocemente a complicação, o que permitirá uma intervenção adequada. Isso, sem dúvida, resultará na diminuição da morbidade e mortalidade. Por outro lado, existe também a questão do desenvolvimento, no sentido amplo da palavra. Uma população mais bem nutrida, mais bem educada, com mais recursos na saúde e melhores condições de vida, também resultará em menores taxas de morbidade e mortalidade.



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