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“Sou uma criança cuidando de outras” – Atualmente, 66% das gestações entre adolescentes são indesejadas

Vulnerabilidade social, baixo nível de escolaridade e assistência precária dos serviços de saúde estão entre fatores que explicam alto índice de gravidez precoce; em 2015, dos 3 milhões de nascidos vivos no Brasil, 18% eram filhos de adolescentes

 Raquel tinha 16 anos quando ficou grávida. Até receber a confirmação, pouco sabia sobre sexualidade e gestação. Caso raro na família, foi expulsa de casa e, no mesmo dia, ajeitou-se num cômodo pequeno com outros dois tios. Sem ajuda financeira, precisou fazer faxinas para contribuir com o aluguel e sustentar a filha. Dois anos depois do primeiro parto, aos 18, ela deu à luz ao segundo filho. O nascimento foi complicado e o menino sofreu uma lesão permanente no braço. Filhos de pais diferentes, as crianças recebem amparo da avó e da igreja no bairro.

Prestes a completar 22 anos, Raquel – cujo nome foi preservado – se arrepende da gravidez precoce, sonha em concluir os estudos, conseguir um emprego e montar um quarto para os filhos. “Fico triste quando o leite acaba e preciso recorrer às pessoas para me ajudarem. É um caminho sem volta. Sou uma criança cuidando de outras”, comenta. “Não tive orientação sobre sexualidade na escola ou em casa. Talvez, agora, as coisas poderiam ser diferentes. Fui levada pelo impulso”, lembra emocionada.

Outras tantas brasileiras vivem situação semelhante. Só em 2015, dos 3 milhões de nascidos vivos no Brasil, 18% eram filhos de adolescentes. O Dia Mundial de Prevenção da Gravidez na Adolescência, lembrado em 26 de setembro, reforça a importância do uso de métodos contraceptivos para combater as infecções sexualmente transmissíveis e a gravidez precoce. A campanha reúne organizações não governamentais e sociedades internacionais em mais de 70 países.

Em maio deste ano, o Ministério da Saúde apresentou a Pesquisa Saúde Brasil e constatou queda de 17% no número de adolescentes grávidas, entre os anos de 2004 e 2015. A redução foi de 661.290 nascidos vivos de mães entre 10 e 19 anos para 546.529. A região com mais filhos de adolescentes é o Nordeste (32%), seguido do Sudeste (32%), Norte (14%), Sul (11%) e, por último, Centro Oeste (8%). A queda é explicada pela ampliação do acesso a métodos contraceptivos e pela expansão do Programa Saúde da Família no Brasil, entre outros fatores. Entretanto, apesar da redução dos números, o tema ainda requer cuidado, pois, a cada ano, no mundo, nascem 14 milhões de crianças cujas mães são adolescentes.

O problema ocorre, principalmente, em áreas mais pobres, com poucos recursos e acesso precário à saúde e à educação. “É um grupo composto por meninas que desconhecem o uso de contraceptivos e o funcionamento do próprio corpo, sem preocupação com a saúde sexual e reprodutiva. Os efeitos negativos vão desde o pré-natal tardio e sem o devido acompanhamento, com nascimento de bebês prematuros, até a depressão pós-parto, associada à amamentação em menor tempo”, explica a presidente do Comitê de Infância e Adolescência da Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig) Ana Cristina Corrêa Costa. “É comum muitas filhas de mães adolescentes serem mães adolescentes também. É um círculo vicioso”, afirma.

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) constatou que a iniciação sexual já havia acontecido, em 2015, para 27,5% dos alunos do 9º ano. Entre eles, 39% não usaram preservativo na primeira experiência sexual. O último levantamento aponta, ainda, que 55,5% dos entrevistados consumiram ao menos uma dose de bebida alcoólica na vida. “A iniciação sexual na adolescência está relacionada a muitos comportamentos de risco. O uso de preservativos é reduzido, principalmente, entre meninas menores de 14 anos, o número de parceiros sexuais é bem maior, com mais chances de se contrair infecções sexualmente transmissíveis”, enfatiza a médica.

A especialista acredita que os índices de gravidez precoce podem ser reduzidos à medida que a sociedade avance numa postura mais ativa e questionadora. “Um dos caminhos é levar a educação sexual para dentro das escolas. As meninas mais jovens vão ao ginecologista pela primeira vez levadas pela mãe e por motivos que preocupam a mãe, enquanto as adolescentes mais velhas procuram o médico em busca de orientação sexual. As meninas mais novas, por falta de aconselhamento, ficam suscetíveis a mais problemas.” Ela cita o exemplo da Finlândia, onde existem, nas escolas públicas – quase 100% das instaladas no país–, consultórios médicos para os alunos. “É um país de primeiro mundo, claro, mas nós precisamos pensar alto. A escola é o espaço mais facilitador que há”, avalia.

Em casa ou na escola é importante adaptar os assuntos conforme a faixa etária. Questões como o funcionamento do corpo, por que sente desejo sexual e o que é abuso precisam ser trabalhadas de maneira simples e objetiva. “Nós percebemos que, entre 10 e 13 anos, existe uma diferença de maturidade gigantesca. Algumas meninas já começam a falar em namorar, enquanto outras são mais comedidas. É muito importante respondermos às demandas e ficarmos atentos aos questionamentos. Esse papel cabe aos pais e à escola também. Nas respostas, não precisa ir muito além. Introduzir perguntas como ‘Você está namorando?’, ‘Você já beijou na boca?’ e, até mesmo, assistir a um filme e, a partir dele, tecer comentários pode ajudar”, orienta a especialista em criança e adolescente da Sogimig.

Para muitas meninas, a primeira consulta ao ginecologista é motivo de pânico. Por falta de informação ou por constrangimento, muitas adolescentes adiam ao máximo esse encontro. Não deve ser assim. “A recomendação é que os pais levem as filhas ao ginecologista antes mesmo da primeira menstruação, assim que aparecerem os primeiros caracteres sexuais secundários, como aumento das mamas e surgimento de pelos. Quanto mais cedo, mais orientações elas receberão e conhecerão sobre o funcionamento do próprio corpo. Elas criarão um vínculo com esse médico e terão a quem recorrer. Isso evitará comportamentos de risco e fará com que se sintam habituadas a ir ao ginecologista”, explica.

O acompanhamento médico desde o início da adolescência é também importante para a menina descobrir, de maneira individualizada, o melhor método contraceptivo para sua vida. No caso das adolescentes, os de longa duração, como o Sistema Intrauterino (SIU), são os mais indicados. “Não existe o risco de esquecimento e eles se adaptam melhor ao corpo. Todas as possibilidades devem ser discutidas em conjunto com a adolescente e com o responsável que tiver acompanhando-a. É preciso salientar a importância da dupla proteção, aliando o uso de um método anticoncepcional e  camisinha”, avalia. O governo distribui gratuitamente, através do Sistema Único de Saúde (SUS), pílula combinada, pílula anticoncepcional de emergência, diafragma, minipílula, anticoncepcional injetável mensal e trimestral, assim como preservativos feminino e masculino. Além disso, deu início à oferta de Dispositivo Intrauterino (DIU) de cobre em todas as maternidades brasileiras.

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